segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Documentário " Wonderful Losers - A Different World "

 


Uma visão diferente das provas de ciclismo. É assim que o premiado realizador nascido na Lituânia Arunas Matelis define o seu último documentário.

A ação decorre durante vários anos e como cenário o Giro de Itália. Aqui os protagonistas não são os líderes nem a camisola rosa. Em “Wonderful Losers: a Different World “é retratado o sofrimento daqueles que vivem uma carreira desportiva sempre na sombra dos chefes de fila. A ambição e sucessos pessoais são atirados para segundo plano e numa atitude altruísta os “gregários e aguadeiros" do pelotão trabalham milhares de quilómetros apenas para um objetivo: ajudar o líder da equipa a vencer.

O documentário é muito mais que o esforço e dedicação dos homens que andam sempre na parte de trás de um pelotão. Mostra como é possível não ganhar e ao mesmo tempo sair vencedor de uma corrida. Para Arunas Matelis ser um perdedor não é nem bom, nem mau, é uma vocação que pode sair vencedora e adorada, tal como o “eterno segundo “Raymond Poulidor.

É certo que no mundo do ciclismo os líderes e chefes de fila são mais talentosos que os restantes companheiros, mas sozinhos nunca conseguiriam vencer uma competição de 3 semanas com mais de 3000km.

O documentário tem vencido muitos prémios e está em boa posição para a nomeação aos Oscars.

AWARDS
Warsaw Film Festival – Best Documentary 2017
Minsk Listapad Film Festival – Grand-Prix for Best Documentary 2018
Minsk Listapad Film Festival – Audience Award 2018
Lithuanian Filmmakers Union Award – Best Lithuanian Film 2017
Trieste Film Festival – Best Documentary 2018
National Lithuanian Film Awards – Best Documentary 2018
National Lithuanian Film Awards – Best Composer 2018
National Lithuanian Film Awards – People’s Choice 2018
Baltijos Banga International Film Festival – Audience Award 2018
Ulju Mountain Film Festival – Best “Exploration & Adventure” Film 2018
Kendal Mountain Film Festival – Special Jury Prize 2018
Bilbao Mendi Film Festival – Best Director 2018
 

Pode ser visto nas principais plataformas VOD, como por exemplo aqui, e o trailer oficial já está disponível:
 
 


Sem aguadeiros e gregários não existiam chefes de fila. Mas será que os campeões do ciclismo conseguiam fazer as tarefas domésticas necessárias à vitória?

É a esta pergunta que Arunas Matelis pretende dar resposta no seu último documentário: “ Wonderful Losers: Different World” .
A não perder !

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Prémio " Bidon de Ouro 2018 " : O VENCEDOR



 
Foram cerca de 1500 votos para eleger o momento ciclístico romântico do ano de 2018.

Depois de 2 semifinais discutidas em sprint, o Prémio “Bidon de Ouro 2018 “teve uma final bastante desequilibrada.

Na primeira semifinal Vincenzo Nibali vence por uma unha negra o belga Tiesj Benoot e disputa a final com o eslovaco Peter Sagan que ganha a Chistopher Froome ultrapassando-o no último dia de votação.
Final " Bidon Ouro 2018 "
 

Peter Sagan sucede a Phillipe Gilbert e leva o troféu “Bidon de Ouro 2018 “

Para ver ou rever, ainda em 2018 ou em 2019, antes ou depois do concerto de ano novo da Filarmónica de Viena, pois no que ao ciclismo diz respeito, este foi a melhor sinfonia de 2018. Pelo menos para os leitores e amigos do Aguadeiro Trepador Blog.



A edição 2018 do Paris-Roubaix viu Peter Sagan insuperável e que vence finalmente a rainha das clássicas. O dia também ficou marcado pelos piores motivos. O falecimento de Michael Goolaerts.

Obrigado pela participação e votos de um bom ano 2019.
Peter Sagan , Paris-Roubaix 2018
 
A temporada está quase, quase …a começar.

Boas pedaladas.  

AT



quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Imagens com estória nº 3 : " A traição de Ronse "



Ronse é uma pequena cidade belga da região da Flandres. A sua ligação com ciclismo é naturalmente muito forte. É palco de passagem das várias corridas belgas de apenas um dia. Por Ronse passa normalmente a Ronde Van Vlaanderen e o seu Kluisberg com 1km de distancia, 6,5% inclinação média e 15% máximo.

Ronse também é conhecida pelos dois mundiais de ciclismo aí disputados: em 1988 ganhos por Maurizio Fondriest e em 1963 vencidos pelo jovem belga Benoni Beheyt, Mundiais esses que acabaram em polémica.

Quando o tiro de partida foi dado em Ronse havia um ciclista favorito a vencer os 323km essencialmente acidentados no típico terreno flamengo. Era o belga Rik van Looy.

Van Looy era na altura uma das maiores estrelas do ciclismo mundial. Disputava o título de “estrela maior” com nomes como: Frederico Bahamontes, Jacques Anquetil e Raymond Poulidor. Vencedor dos mundiais de ciclismo em 1960 e 1961, Van Looy apresentava em 1963 um palmarés notável. Com 31 anos e num grande momento de forma o belga já tinha vencido os 5 Monumentos do Ciclismo (Paris-Roubaix , Liége-Bastogne-Liége, Ronde van Vlaanderen, Milano-SanRemo e Giro da Lombardia ). Também tinha no currículo 12 etapas do Giro de Itália e em 1963 no Tour de France venceu 4 etapas. Rik Van Looy , o Keizer van Herentals como era conhecido, tinha uma seleção belga preparada inteiramente para o ajudar. A tática era simples: controlar as fugas de nomes importantes e atacar a corrida no Kluisberg a cerca de 10km da meta. Quando a corrida passou pelo “Muur” de Kluisberg apenas 26 ciclistas estavam na frente com os belgas a comandar a corrida com 6 elementos e o seu líder Rik Van Looy. Tudo corria como previsto e à entrada para o último km já com o risco de meta à vista não parecia haver grandes dúvidas: entre a multidão todos gritavam por um nome: o herói belga , o Imperador, Van Looy que estava perto de conquistar o seu terceiro mundial de ciclismo de estrada.

Van Looy estava prestes a cortar a meta e a erguer os braços no ar. Mas atrás do grupo da frente vinha outro belga que se manteve sempre na mesma posição. Era o jovem de 22 anos Benoni Beyeht que se estreava na seleção do seu país. Aos poucos Beyeht ganhava posições e estava agora atrás do seu líder Van Looy. Num momento de “loucura “o jovem ciclista da equipa Wiel’s-Groene Leeuw agarrou no selim de Van Looy e cruzou a linha de meta em primeiro. Beyeht tinha ganho os mundiais de ciclismo. Todos estavam incrédulos. Rik Van Looy nem uma palavra dizia, o seu rosto estava fechado e perto de explodir. A comitiva belga não sabia se podia festejar ou se se mantinha calada e na multidão havia um silêncio geral e todos estavam espantados com o que acabaram de ver. O seu Imperador fora derrotado por um jovem de 22 anos . Esta cena não estava prevista na peça dos Mundiais de Ciclismo de Ronse e muitos dos fãs de Van Looy apelidaram-na de “ a Traição de Ronse”.
Beyeht ultrapassa Van Looy em cima da meta
 

Na cerimónia do pódio o clima era tenso. Van Looy nem levantou a cabeça , o terceiro classificado , o holandês Jo de Haan, não sabia o que fazer e mesmo o vencedor Beyeht festejou timidamente a sua maior conquista como profissional de ciclismo.

Benoni Beyeht provavélmente sabia o que seria a sua vida daqui para a frente. Ninguém lhe deu os parabéns. Nem os seus companheiro de seleção. Rik Van Looy tinha muito poder nos meandros do ciclismo e ninguém queria ficar contra o todo poderoso Imperador belga.

A “Traição de Ronse” passou a barreira do ciclismo profissional e nalguns bares e cafés belgas, os poucos adeptos de Beheyt discutiam ferverosamente com os fãs de Van Looy. Muitas vezes essas  discussões terminavam com socos e pontapés.

Rik Van Looy nunca esqueçeu o que Benoni Behety lhe fez naquela tarde de 11 de Agosto de 1963 e os dois nunca mais falaram deste então. Van Looy continuou a conquistar corridas mas a carreira de Behety não foi a esperada para um campeão do mundo. Quando o contrato com a sua equipa terminou nenhuma equipa o quis. Deixou de ser convidado para os principais critérios e a sua carreira terminou dois anos depois de vencer os Campeonatos do Mundo.

A “ Traição de Ronse” tinha ganho outro capítulo : “ a Maldição de Ronse” . Ninguém se pode meter com o Keizer van Herentals

Boas pedaladas.

AT