segunda-feira, 23 de março de 2020

Ciclismo romântico em tempos de quarentena - Episódio 4

Alberto Contador : Angliru 2017


O episódio de hoje leva-nos até Espanha. Alberto Contador é a personagem principal. Muitos episódios de ciclismo romântico poderiam ter o “Pistolero” como protagonista, mas nós escolhemos o seu último disparo como ciclista profissional. Foi no dia 09 de setembro de 2017 no Alto do Angliru. Para sempre ficaram na memória as imagens da multidão em êxtase nas rampas de 24% em Cueñas Les Cabres ou já perto do fim um adepto ajoelhado a fazer a devida vénia a Alberto Contador.

Para rever este grande momento depois de conhecer toda a história do Alto do Angliru.

O mítico Angliru !  
Mas o que faz uma subida que foi percorrida apenas 7 vezes em competição ser alvo de tanta adoração, curiosidade e respeito? A resposta é simples : a  sua dureza e a forma como foi descoberta fizeram com que  El Gamonal ( o outro nome ) figurasse nalgumas listas das ascensões  lendárias. É justo ? Veremos.
Vamos por partes, primeiro a geografia.
 
O Angliru fica situado no norte de Espanha , na região das Astúrias. No meio de uma vasta zona de pastagem. Os seus 1570m de altitude fazem parte do coração da serra de Aramo no concelho asturiano de Riosa. Quem tiver coragem para subir ao alto terá de se deslocar à aldeia de La Vega de Riosa. A subida ao “Olimpo do Ciclismo” começa aí…

El Angliru: serra de Aramo nas Astúrias

Mas porque é que a 1ª subida ao alto do Angliru apenas foi percorrida em competição em 1999? Pela mesma razão que as “montanhas “que só nós conhecemos nas nossas voltas de domingo raramente fazem parte da Volta a Portugal. Não são conhecidas.  O Angliru também não o era.  A primeira vez que se deu a conhecer ao mundo do ciclismo foi na edição de fevereiro de 1996 da revista espanhola “Ciclismo a Fundo” . Apartir daí a sua “vida” mudaria por completo.
O responsável pela sua descoberta foi Miguel Prieto, diretor de comunicação da Organização Nacional de Cegos Espanha ( ONCE) para sempre conhecido como o “ visionário cego “ . Prieto não fez por menos.  A 23 de setembro de 1997 escreveu uma carta (ver a carta)  aos responsáveis máximos da organização da Vuelta : Enrique Franco e Alberto Gadea. Tentava então convencê-los que a subida ao Angliru seria umas das mais espetaculares de sempre… Apenas conhecida por pastores locais que a utilizavam para movimentar o seu gado , agora que foi pavimentada não havia razões para não fazer parte do percurso. Para Prieto , se a Itália tinha o Mortirolo e a França o Mont Ventoux então a Espanha não podia ter “apenas “ os Lagos Covadonga. Tinha de ter algo mais difícil e duro. A resposta só podia estar em La Veja de Riosa e no seu Angliru.
Zona de pastagem de gado, El Gomonal nasceu para o ciclismo em 1999
 
Franco e Gadea acompanhados de Prieto fizeram o seu reconhecimento em 1998 e encontraram “ a misteriosa montanha asturiana. A mais dura subida jamais vista” . Passados 13 dias na apresentação da Vuelta a surpresa. Era oficial, o Angliru iria ser palco de um final de etapa. O mundo ciclístico tinha então os olhos postos neste monstro asturiano e as reações não se fizeram tardar. Um dos melhores trepadores de então, o italiano Leonardo Piepoli, visitou o Angliru uns dias antes do inicio da Vuelta 1999 e descobriu como “era impossível “ principalmente a zona de Cueña les Cabres e as suas rampas de 24% de inclinação . Outros críticos perguntavam o que queria a organização: “sangue ?”. Vicente Belda, diretor desportivo da equipa Kelme , estava indignado. “Como queriam um ciclismo limpo se depois os corredores subiam estas barbaridades …” antecipando-se ao escândalo de doping onde a sua equipa esteve envolvida anos mais tarde.
Cuenã les Cabres : rampas de 24% inclinação
 
José Maria Jiménez: primeiro vencedor no Alto de Angliru
Mas o grande momento chegou. A etapa ligava a cidade de Léon ao Alto do Angliru e num duelo digno de um filme de suspense o espanhol José Maria Jiménez bate o russo Pavel Tonkov sobre a linha de meta e torna-se o primeiro a conquistar El Gamonal. No final dedica a vitoria ao seu amigo Pantani : “ Nunca subi uma montanha tão dura. É exageradamente forte. Aqui Pantani e eu faríamos estragos “. Com apenas meses de diferença, no Inverno de 2003 a 2004, Pantani e Jiménez, dois dos trepadores mais talentosos da sua geração morriam de overdose de cocaína. Ao dar a noticia da morte de “ Chava “ Jiménez o jornal ABC escreveu “ El primer hombre en la luna ( o al menos en el Angliru )” .
 O Angliru regressou no ano seguinte ( 2000) e o seu vencedor foi o italiano Gilberto Simoni. O impacto da sua vitória no colosso espanhol foi tão grande que em Itália os responsáveis pelo Giro estavam desesperados para recuperar o título de “subida mais dura” que o Angliru tinha roubado ao Mortirolo. Como solução em 2003 incluíram no percurso do Giro de Itália o Monte Zoncolan e também o Col de Finestre com os seus famosos 8km em terra.
Mais 4 edições da Vuelta escalaram a subida: 2002 ( Roberto Heras) , 2008 ( Alberto Contador), 2011 ( Juan Cobo), 2013 ( Kenny Elissonde) e 2017 ( a ultima vitória de Alberto Contador ).
" El Olimpo de Ciclsmo" - Ayuntamiento de Riosa
El Gamonal ganhou fama , e La Veja de Riosa é hoje procurada por quem quer testar as suas capacidades físicas e mentais. Seja a pé ou de bicicleta todos aqueles que visitam a região de Riosa querem conquistar o “Olimpo do Ciclismo “ . A expressão é do Alcaide José Antonio Muñiz que viu na ascensão ao Angliru uma boa forma de promover o seu concelho. Será com certeza exagerada, mas na Serra de Aramo os argumentos esgotam-se tão rapidamente como as forças nas pernas e o ar nos pulmões quando temos pela frente rampas tao duras a ultrapassar os 20% de inclinação.
 
Se o Angliru fará parte do “ Olimpo do Ciclismo” ao lado do Mont Ventoux, Tourmalet, Izoard ou  Alpe D´Huez isso não sabemos . Precisa de muita coisa, principalmente de história. E também no ciclismo a história precisa de tempo e o Angliru ainda é muito novo.
 
Desde La Vega de Riosa
Altitude : 1573m
Distancia: 12,5k
Desnível: 1266m
Média: 10,13%
Máxima: 23,5%
 
 
 
 


Boas Pedaladas
AT

sábado, 21 de março de 2020

Milano - Sanremo : A história da " La Classicíssima"


 
Hoje seria o dia do primeiro Monumento da temporada. A Milano-SanRemo , a "La Classicíssima " ou " La Primavera" . Não fosse o maldito vírus e hoje seria também o dia onde bebíamos 10 cervejas " Abadia" para comemorar a vitória de Philippe Gilbert no único Monumento que não faz parte do seu palmarés. Hoje Gilbert junta-se ao lote dos " três Magnificos" : Merckx , Van Looy e Vlaeminck .

Mas outros mais já brilharam no final da Via Roma. Coppi até descansou para beber um café e Nibali colocou a cereja em cima do bolo extraordinário que é a sua carreira.

Aqui ficam algumas histórias da " La Classicíssima"

 

Milano-SanRemo: o primeiro “Monumento”

 
A prova foi organizada pelo jornal desportivo “Gazeta dello Sport” e teve a distância de 288km. Estavam escritos 62 ciclistas, mas na linha de partida em Milano apenas se apresentaram 33. Mais de metade desistiu durante a prova e em San Remo apenas 14 “heróis “cruzaram a linha de meta. O francês Lucien Petit-Breton foi o mais rápido a percorrer a ligação. Nesta altura fazer 288km significavam muitas horas em cima das bicicletas e Lucien “Petit-Breton” levou 11h04m. Uma média de 26km/h. Uma grande performance para a altura. Atrás do francês chegou o seu compatriota Gustave Garrigou e em terceiro o italiano Giovanni Gerbi, o famoso “Diabo Vermelho” que já falamos aqui.
Lucien " Petit Breton" o 1º vencedor
 

Nesta época provas com distâncias elevadas não tinham apenas a vertente de competição desportiva. Eram também provas de superação da resistência humana e nalgumas vezes de sobrevivência.

Além da elevada distância as estradas eram péssimas e muitas vezes as condições meteorológicas eram dantescas. Numa das primeiras edições os ciclistas tiveram mesmo de “furar” pela neve para continuar na direção de San Remo. Aconteceu em 1910.

A edição de 1910 foi particularmente difícil. Começou pelas 6 da manhã e logo nos primeiros km os ciclistas encontraram uma tempestade de neve.

MSR 1910: " a furar a neve"

Ao chegar ao Passo de Turchino , subida que se mantem e que fará parte do percurso da edição de 2019, muitos ciclistas não aguentaram e voltaram para trás. Outros pediram refúgio nas casas que encontraram e depois de aquecerem o corpo recusaram-se a continuar em prova e foram diretos para casa. Depois do Passo de Turchino apenas 30 ciclistas continuaram em prova. Um deles foi Eugène Christophe que viria a ser o primeiro em San Remo. A meio da prova Christophe foi obrigado a vestir umas calças para se proteger do frio. Ao passar por Savona , o francês assumiu a liderança mas por pouco tempo. As suas calças entalaram-se na corrente da bicicleta e Christophe viu-se obrigado a pedir ajuda numa pequena localidade. Enquanto lhe cortavam as calças, libertando-o da bicicleta, o ciclista aproveitou para se alimentar abastecendo-se convenientemente para o resto da prova. Apesar do tempo perdido Christophe ganhou um novo folego e conseguiu alcançar a frente da corrida. Sem as calças e bem alimentado passou direto para a liderança e chegou a San Remo com mais de 1 hora de vantagem para o segundo classificado. A epopeia de Eugene Christophe durou 12h24m. A mais lenta das edições da Milano – San Remo. No final o francês foi hospitalizado por queimaduras nas mãos e cara. Esteve mais de um mês no hospital de San Remo e só voltou a competir passados 2 anos.
Eugene Christophe vencedor em 1910
 
Mais recentemente a neve também fez a sua aparição durante a prova. Foi em 2013. Os ciclistas não se refugiaram nas casas por onde passavam, mas sim nos autocarros e carros das suas equipas. Mas tal como em 1910 muitos já não regressaram á competição.

Nos anos seguintes a prova foi ganha pelos grandes nomes da altura: Alfredo Binda, Constante Girardengo ou Henry Pellissier.

 
Também a Milano San-Remo foi palco de batalha da maior e mais bonita rivalidade do ciclismo: Gino Bartali vs Fausto Coppi. A luta entre os dois não se fez apenas no Izoard (Alpes) ver aqui, ou no Tourmalet (Pirenéus ) ou noutra qualquer grande subida do Tour de France ou do Giro de Itália. Para a historia ficam também as edições da década de 40 onde os dois italianos disputavam a “Classicíssima “como se fosse a última corrida da vida. Num ano era Bartali que fugia logo no Passo de Turchino conquistando a corrida com uma longa escapada de centenas de quilómetros. No ano seguinte era a vez de Coppi pedalar com elegância e distanciar-se de Bartali acabando em San Remo com muitos minutos de vantagem. Na edição de 1946 a vantagem de Coppi era tão grande que o “Campionissimo” parou para tomar café seguindo mesmo assim destacado na frente. Entre 1940 e 1950 a corrida foi disputada nove vezes (paragem de dois anos devido à Segunda Guerra Mundial). Dessas nove edições Bartali e Coppi venceram seis.

O " famoso" café onde Coppi bebeu um café em plena MSR 1946
 

O palmarés da Milano-Sanremo é vasto e rico em nomes importantes: Eddy Merckx é o seu recordista. O Belga ganhou 7 vezes. Tambem Rik van Looy e Roger de Vlaeminck venceram a prova italiana para completar o penta dos “Monumentos “. Franscesco Moser e Laurent Fignon também tem o nome inscrito na placa do primeiro lugar, assim como Laurent Jalaber, Erik Zabel, Cancelllara, Cavendish ….

 

As últimas 3 edições da prova foram espetaculares.

Em 2017 a “ La Primavera” foi ganha pelo polaco Michał Kwiatkowski num sprint muito comentado e discutido com o francês Alaphillipe e o campeão do mundo Peter Sagan. Todos os três são dos principais favoritos a ganhar a edição 2019 da “Classicíssima”.

Em 2018 foi a vez do tubarão de Messima. Vincenzo Nibali juntou ao seu vasto palmarés a Milano-SanRemo, numa vitória que ficará para sempre na memória do próprio, dos seus fãs e de todos aqueles que gostam de ciclismo espetacular. Nibali ataca no Poggio de SanRemo para ser apanhado já depois de cruzar a linha de meta na Via Roma. ( ver aqui)

O ano passado foi a vez do francês Julian Alaphillippe atacar o Poggio de Sanremo e partir a corrida para depois vencer ao sprint num grupo reduzido.
 

 

sexta-feira, 20 de março de 2020

Ciclismo romântico em tempos de quarentena – Episódio 3


Mundiais 1973: vitória de Felice Gimondi
Nunca um final da prova de fundo masculina foi tão falado e discutido como aquele que aconteceu no final da tarde de 2 de setembro de 1973. O sprint, depois da subida ao castelo de Montjuic teve 4 protagonistas: os belgas Eddy Merckx (vencedor do Giro e Vuelta desse ano) e o irreverente Freddy Maertens , o italiano Felice Gimondi e a estrela espanhola Luís Ocaña que tinha acabado de dar a Espanha o sei segundo triunfo no Tour de France.

Os mundiais de 73 começaram mesmo antes do tiro de partida.  Da Bélgica vinham duas figuras. O jovem de 21 anos Freddy Maertens e Eddy Merckx . Em 1973 o “Canibal” já tinha ganho tudo o que havia para ganhar: as 3 grandes voltas, os 5 monumentos e os mundiais de ciclismo.  Mas Maertens ainda não tinha vitórias no seu currículo. Nesse ano, a sua primeira temporada como profissional, alcançou um prestigiante segundo lugar no Tour de Flanders e um quinto posto no “Inferno do Norte”: Paris – Roubaix. A sua irreverência e ousadia valeram-lhe desde cedo uma boa base de fãs. O seu potencial era muito e depressa chegou à melhor equipa de ciclismo do mundo: a Flandria. Para todos, incluindo para a equipa belga, o jovem Freddy seria o fiel escudeiro de Merckx na busca pelo seu terceiro título mundial. Maertens não concordou e depressa fez saber que não iria a Barcelona para correr para Eddy.

O clima na seleção da Bélgica era de cortar à faca e pior ficou quando a 100km da meta , Eddy Merckx acelera na frente da corrida ficando isolado. O seu plano era chegar sozinho à linha de meta instalada em Montjuic. Maertens apenas teria que controlar os adversários, mas ao contrário do esperado foi ele próprio que persegue o seu líder e o grupo da frente rola compacto outra vez. A 30km do fim e na penúltima ascensão a Montjuic o “Canibal” insiste novamente e elimina todos os seus adversários. No momento ninguém responde, mas passados alguns metros é de novo Maertens a ter as despesas da perseguição. A comitiva belga estava incrédula. Arrastados pelo jovem belga, Felice Gimondi e Luis Ocaña alcançam Merckx e os últimos quilómetros são percorridos por um quarteto de luxo.

Merckx e Maertens tinham obrigatoriamente de se entenderem. Em maioria no grupo, o título de campeão do mundo não poderia fugir às cores belgas. O acordo entre os dois era o seguinte: Maertens iria acelerar nos km´s finais lançando Merckx para a vitória. A recompensa seria um chorudo cheque de francos suíços. Freddy acelerou e tudo corria como previsto, mas a 500m da meta o jovem corredor da Flandria força ainda mais e quando olha para trás apercebe-se que Merckx não consegue seguir na roda. Tarde demais, a meta estava a escassos 30m e era preciso sprintar. Gimondi apercebe-se do sucedido, aproveita o desentendimento entre os belgas  e lança-se nos metros finais conseguindo assim o seu primeiro e único título de campeão do mundo de estrada.

O escândalo e a controversa reinavam na seleção belga. Gritos e discussões junto dos carros de apoio e mais tarde no hotel. Maertens acusa os adeptos de Merckx de lhe lançarem água gelada e outros objetos durante a prova. Ambos acusaram um e outro de traição.  À custa do sprint do mundial de 1973 os 2 estiveram 34 anos sem se falar.  

Em 2007 , durante o Tour de France, os 2 ex – clclistas belgas tem um encontro inesperado. Maertens está a fumar e Merckx pede-lhe um cigarro e conversa.

“ Freddy temos de falar sobre Montjuic”

“ Ok Eddy, concordo”

Estiveram horas a falar e no final da noite apertaram as mãos como 2 grandes campeões .

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Freddy Maertens fui um dos melhores sprinters de todos os tempos. O belga alcançou 221 vitórias enquanto profissional com destaque para os dois títulos mundiais : 76 e 81, as 15 etapas no Tour de France, as 7 no Giro de Itália e as 13 na Vuelta a Espanha numa única edição. É um recorde que se mantém até aos dias de hoje e que lhe valeu a vitória na geral individual da prova espanhola de 1977. É o único sprinter a vencer uma grande volta.

O currículo de Maertens tem uma falha: nunca ganhou um dos 5 Monumentos do ciclismo mundial. No museu da Ronde Van Vlaanderen em Oudennarde a placa do vencedor da edição de 1977 tem o nome de Roger de Vlaeminck . Por cima aparece outra mais pequena: “ Vencedor Moral : Freddy Maertens” . Mas essa estória fica para outra ocasião.

Boas pedaladas,
AT