sábado, 21 de abril de 2018

Liège-Bastogne-Liège: adeus às classicas !


 
E tudo o que é bom tem fim! No ciclismo também. As corridas de um dia, muitas delas chamamos clássicas, terminam hoje com a 104ª edição da Liège-Bastogne-Liège e os seus 254km. É o quarto Monumento do ano e a mais antiga das 5 provas. Dai que o seu apelido é “La Doyenne” ou seja, a mais antiga. Bem não é de todo verdade pois na parte final da época ainda teremos Il Lombardia, mas por norma e em linguagem ciclística a LBL marca o fim das corridas de um dia e o inicio das grandes voltas por etapas.

Corre-se na região belga das Ardenas e aqui os muros em pavê desaparecem e dão lugar a subidas curtas, duras mas bem pavimentadas. Já aqui o dissemos várias vezes mas a verdade é esta: enquanto os flamengos , mais pobres, pavimentaram as estradas com pedras, os valoēs , mais ricos , escolheram o alcatrão . Para a Valónia melhores estradas para a Flandres mais ídolos das 2 rodas. Nos paralelos fazem se homens e não é por acaso que a grande maioria dos nomes belgas mais importantes são todos flemish. Isto vem de pequenino : Rick van Looy , Eddy Merckx, Roger de Vlaemink, Museew , Boonen e Avermat. Só há uma excepção : Phillipe Gilbert é valão e natural da zona da subida mais mítica da prova : la Redoute.
Uma imagem habitual na LBL
 
Muitas foram as histórias de uma corrida já centenária, mas provavelmente uma das mais marcantes foi aquela edição ganha pelo ciclista que um dia disse: “ eu odeio as clássicas belgas!” . Estamos a falar do Texugo, aquele “ animal” que ganhou 5 voltas a França, 3 Giros de Italia, 2 voltas a Espanha , foi campeão do mundo e ganhou quase todas as grandes clássicas  com exceção da Milano-SanRemo e da Ronde van Vlaanderen. Já sabem de quem falamos? Sim ? Pois, Monsieur Bernard Hinault. E tudo aconteceu em 1980.

A edição de 1980 ficou para sempre conhecida como Neige-Bastogne-Neige” : neve-Bastogne-neve. De inicio ao fim toda a prova ficou marcada por uma forte tempestade de neve e temperaturas glaciares. Dos 174 ciclistas que partiram em Liège apenas 21 conseguiram regressar e o primeiro a cortar a meta foi Hinault depois de atacar a 80km da meta seguindo sozinho pelas estradas cobertas de neve. O ataque e a fuga de Hinault foram tao poderosos que o francês ganhou com uma vantagem de 10 minutos para o segundo classificado.  Este dia ficou marcado em Bernard Hinault e não apenas pelos melhores motivos . Sofreu queimaduras pelo frio em dois dedos da mão direita e apenas conseguiu voltar a fazer os movimentos normais três semanas depois. Aqueles dois dedos ficaram para sempre debilidados.
Bernard Hinaul , Liege-Bastogne-Liege , 1980
 
 Na Liège-Bastogne-Liège, tal como nos outros quatro Monumentos, também temos uma troço/subida que marca a história da própria corrida. Se na Milano-SanRemo temos a Cipressa ou o Poggio di SanRemo, na Ronde van Vlaanderen o Koppenberg ( já aqui falamos) e o Kapelmuur ( também , aqui) , no Paris-Roubaix o Troueé de Arenberg e na Il Lombardia o Muro di Sormano, na prova das Ardenas temos a subida com nome de revista de moda: La Côte de la Redoute.
La Côte de la Redoute: território de Phillipe Gilbert
 
A La Redoute  e os seus 2,4km a 9,8% de média foram introduzidos na LBL em 1975 e depressa começou a ser palco dos melhores e mais emotivos  confrontos entre os ciclistas. Mas nenhum desses confrontos foi tao sangrento e violento como aquele que ocorreu naquela zona durante dois dias de setembro em 1774 quando os revolucionários franceses lutaram contra o exercito imperial austríaco.
Monumento a assinalar a batalha de 1774

A pequena fortificação construída como último reduto de defesa deu lugar ao nome de batismo daquela “pequena” colina: La Côte de la Redoute e dois seculos depois aqueles caminhos rurais tornaram-se um dos percursos mais sagradas para a historia do ciclismo.
Bernard Hinault na edição de 1980, já relata anteriormente, seguia isolado e em plena La Redoute viu o seu diretor desportivo aproximar-se com um pequeno lenço para lhe aquecer as mãos dizendo a brincar que o francês parecia um yeti com um gorro vermelho na cabeça. O Texugo não gostou e no seu jeito bem característico prontamente respondeu:

“Vai à merda , ou sobe aqui para a bicicleta e pedala tu “ .

Não foi isso que aconteceu porque Guimard continuou dentro do carro da equipa Renault e Hinault em cima da bicicleta pedalado de volta até Liège.
Hinault e o seu gorro vermelho, LBL 1980
A edição de 2018:

O percurso é o habitual e depois de passar a Cote de la Redoute (2,4 a 9,8%) a cerca de 35km da meta a corrida deverá estar lançada e com um grupo restrito de cerca de 40/50 ciclistas. As ultimas duas subidas , a Cote du Roche-aux-Faucons (1,5 kms a 9,3% ) a 19,5km do fim e por ultimo a Cote de Saint-Nicolas (1,2 kms a 8,6%) a apenas 5,5km de Ans decidirão quais os mais fortes para atacar aquele difícil ultimo km antes de cruzar a linha de meta.

Nibali vai atacar isso é certo. Cuidado com o tubarão de Messina. Quem também o vai fazer se a corrida for discutida num grupo muito reduzido deve ser Alexandro Valverde mas provavelmente só o fará nos últimos 500m. O espanhol é talvez o maior candidato a vencer depois de falhar a sua quinta vitória na Fleche Wallone

Tim Wellens falhou na Fleche Wallone , ainda não tem nenhum Monumento mas um dia o homem da Lotto Soudal deverá ver coroado o seu espirito de ataque e a sua atitude combativa. Na LBL tem em Vanendert a sua principal ajuda. Ajuda essa que não foi muito bem conseguida na última quarta feira no Mur d Huy.

A matilha da Quick-Step Floors (QSF) deverá tentar assumir a corrida e não deixar para a Movistar a condução da mesma. A equipa espanhola está montada à volta de Valverde e o objetivo é apenas 1: não deixar fugir ninguém e levar um pequeno grupo para o final. Valverde fará o resto. Para isso a equipa belga tem de atacar. Gilbert, Mas e Jungels tem um papel decisivo. Se a corrida for discutida ao sprint será o francês Alaphillipe a assumir o papel de líder na QSF e tentar vencer novamente o corredor murciano da Movistar.

Atenção a Jakob Fulgsang, Tom Dumoulin e ao ataque de Roman Kreuziguer.

A participação portuguesa está a cargo de Rui Costa e Ruben Guerreiro.
Liège-Bastogbne-Liége 2018
 
Startlist: aqui
Percurso: aqui
Transmissão TV : às 13h00 Eurosport 1
Hastag: #LBL #LBL2018 #LBL18

Boas pedaladas

AT

terça-feira, 17 de abril de 2018

Quando a estupidez humana não tem limites !


“Eu faço o que me apetece, eu pago para participar “
Foi desta forma que alguém reagiu à publicação, via Facebook, da organização do Gerês Granfondo alusiva ao facto de alguns dos participantes deitarem fora as embalagens e outros resíduos do abastecimento alimentar.

Logo de início esta espécie da família dos Australopithecus tem também outra frase digna de prémio nobel da parvoíce:
“Nas grandes voltas não jogam as embalagens?”

Foto retirada do Facebook: a organização do Gerês Grandfondo em trabalho de limpeza

Pois bem, vamos por parte :

Parte 1 (a positiva ) :
Começamos pelo melhor. A moda de andar de bicicleta. São cada vez mais aqueles que andam de bicicleta. Quer por necessidade, e escolhem a bicicleta para as suas deslocações diárias, quer por prazer e vão pedalar com os filhos com um atrelado ou num simples passeio no parque ambiental da localidade onde moram ou então por desporto. É de louvar.

Nesta última opção, a desportiva, a escolha é muita: passeios BTT, maratonas, provas de 24h e agora ultimamente os Granfondos. São vários e bons aqueles que se realizam todos os anos percorrendo as mais belas estradas e regiões do país.
Os Granfondos são talvez a melhor forma de nós, puros amadores, sentirmos as emoções e adrenalina das grandes competições profissionais. São as classificações, são os prémios, são as contagens de montanha, são os batedores da GNR, são os altifalantes, é o publico a aplaudir, é toda uma envolvente que só se consegue com o empenho e dedicação e alguma ousadia de quem organiza este tipo de evento. Afinal todos já nos “vimos” no cume do Alpe D’ Huez a erguer os braços e a celebrar uma grande vitória que só existe no nosso imaginário. E tão bem que isso sabe e tão saudável que é.

 Parte 2 ( a negativa)
Mas, como em quase tudo na vida, existe o reverso da medalha e o lado negativo desta massificação e “moda “dos Grandfondos . Acreditamos e sabemos que esta situação é a exceção, mas infelizmente ainda existe.

Algumas pessoas, o caso deste Australopithecus, autor das frases descritas em cima, levam isto tão mas tão a sério que caem no cúmulo da estupidez e da indecência. São os chamados novos pseudo profissionais do ciclismo que não passam de patetas montados numa bicicleta.
Pensa esta gente que por ver os profissionais atirarem resíduos para o chão durante as “grandes competições”, atitude reprovável, mas que aos poucos tem vindo a diminuir, também eles devem fazer o mesmo. Na sua cabeça isso até é uma situação normal. No fundo é um requisito para o seu profissionalismo de sargeta.

Mas a situação até se torna caricata e estupida por esta questão: levam as barras ou o gel nos bolsos do jersey que pesa 40g. Ingerem. A embalagem pesa agora metade e é nesse momento que se desfazem dela da pior forma possível. Isto tem alguma lógica?  Pois bem não tem lógica é apenas estupidez, falta de civismo e um egoísmo atroz que envergonha qualquer pessoa.

Provavelmente e isto tudo só se deve passar na sua cabeça, fazem-no para não perder rendimento: para não baixar a média, para ter uma cadência elevada, para produzir mais watts etc etc etc ….todas essas coisas dos profissionais do pelotão .

Mas esta estupidez até pode ser resolvida. Claro que a melhor forma era pela parte educacional, mas que nestes casos parece já ser um pouco tarde. Não havendo tempo para ensinar nem compreensão mental da outra parte para encaixar a ideia primitiva que “não devemos deitar lixo para o chão “a única solução é o castigo. Infelizmente. Há duas formas:

1-      Castigar pela violação do regulamento da prova, neste caso no Gerês Granfondo o regulamento é claro:

Art. 21 – Serão penalizados, em último caso com a desclassificação, todos aqueles que:

d) Não respeitem o ambiente, poluindo ou degradando o mesmo ao longo do percurso, seja pelo lançamento de desperdícios ou outros.

2- Castigar pela via civil : é crime poluir sítios naturais protegidos como é o caso do nosso único parque nacional : Parque Nacional da Peneda-Gêres.
Mata da Albergaria: Parque Nacional da Peneda-Gerês
 
Só assim estas situações podem diminuir, pois mudar a mentalidade destas pessoas será sempre uma tarefa hercúlea pois lá no quintalinho do seu cérebro serão sempre o Alberto Contador ou o Marco Pantani.

A meio da acesa conversa e em resposta a algumas observações não muito abonatórias à sua atitude , o nosso Australopithecus tem o seu ultimo comentário: “ Creche e aparece” . Pois bem , aqui está a prova que o seu lugar é numa cadeirinha de uma creche , a aprender as primeiras letras do abecedário e algumas  regras de bom comportamento , devagarinho , para ver se aprende .

Sim numa creche, pois no mundo das bicicletas esta gente não deveria ter lugar .

Rua, cartão vermelho direto!!!!

Boas pedaladas,

AT
Nota: uma palavra de gratidão à organização do Gerês Grandfondo pela atitude de limpar aquilo que o nosso Parque Nacional da Peneda-Gerês não merece ter. OBRIGADO.

domingo, 15 de abril de 2018

Amstel Gold Race : a 1ª da Tripla das Ardenas





E depois da Flandres e do norte de França vem a Valónia e as Ardenas , que é como quem diz , acabaram se os paralelos. O que é uma pena!
Enquanto os flamengos , mais pobres, pavimentaram as estradas com pedras, os valoēs , mais ricos , escolheram o alcatrão . Para a Valónia melhores estradas para a Flandres mais ídolos das 2 rodas. Nos paralelos fazem se homens e não é por acaso que a grande maioria dos nomes belgas mais importantes são todos flemish. Isto vem de pequenino :... Rick van Looy , Eddy Merckx, Roger de Vlaemink, Museew , Boonen e Avermat. Só há uma excepção : Phillipe Gilbert é valão.
 
Vai começar a tripla das ardenas:
1- Amstel Gold Race ( hoje )
2-Fleche Wallonia ( quarta )
3- liege bastogne liege ( domingo )
 
Hoje é a holandesa Amstel Gold Race.
 
A Amstel Gold Race é teoricamente a menos importante. Já não há Cauberg a finalizar desde 2017 e as criticas fizeram-se em todo o lado. Sem razão, a edição do ano passado foi das mais espetaculares dos últimos anos. Se hoje tivermos metade das peripécias de 2017 é uma tarde bastante entretida.
 
Sagan está presente depois de vencer o Inferno do Norte. Valverde e Wellens também. O vencedor do ano passado, Gilbert, marca presença e Kwia é a arma da Team Sky.
O tubarão de Messina também vai assinar o livro de partida e Nibali traz uma equipa de luxo. Se não der para Vincenzo está lá Cobrelli e se os italianos falharem entra a dupla espanhola Izaguirre
 
São 260km , 35 muros entre Maastricht - Berg en Terblijt e a transmissão começa ás 13h45m na Eurosport 1
 
 
 

sexta-feira, 30 de março de 2018

Ronde van Vlaanderen 2018 : em dia de Páscoa ides todos à missa.


 
102ª edição da Ronde Van Vlaanderen

No próximo domingo (1/4/2018) disputa-se o segundo Monumento ciclístico do ano. Depois da Milano-SanRemo e do recital de poesia romântica de Vincenzo Nibali (aqui) , temos então a 102ª edição da Ronde van Vlaanderen . Isto para os flamengos , porque para os franceses é o Tour de Flandres, para os ingleses o Tour of Flanders e na nossa língua Volta à Flandres. Nós vamos entrar no espirito e tal como os flemish vamos chamar-lhe apenas Ronde !

Por falar em espirito e em espiritualidade, também no domingo é dia de Páscoa. E já sabemos como os belgas, principalmente os da região da Flandres levam estas coisas da religião. Muito a sério. Eles são tão mas tão crentes que nesta altura do ano as provas são quase diárias e não há estrada, rua ou “helligen “ que não seja ultrapassado. Claro que estamos a falar de ciclismo, a religião predominante no país do Tintin. No domingo as missas e as manifestações religiosas fazem parte integrante dos cristãos em todo o mundo. Na Bélgica provavelmente também, mas grande parte da população tem na sua Ronde a principal manifestação espiritual.
Cerveja + Ronde
O borrego é substituído por cerveja e as igrejas pelos “muros”. A Ronde é o principal evento desportivo da Bélgica e os ciclistas flemish uns verdadeiros deuses….!
 
Bem, nem todas as igrejas são substituídas por “muros”. Há um muro que é a própria igreja e a procissão costuma ser das mais devotas.

Falamos do Muur van Geraardsbergen. Também conhecido no mundo do ciclismo como Kappelmuur ou para os flamengos simplesmente Muur. E isto significa muito. É o “muro”! E como sabemos isso é coisa que não falta nesta região da Bélgica. Para os flemish apenas existem 3 muros: a grande muralha da China; o muro de Berlim e o seu Muur. Mas a vantagem cai para aquele onde no domingo haverá uma verdadeira procissão a caminho da Capela de Nossa Senhora de Oudeberg. Afinal dos três muros é o único onde a história ainda se está a fazer. Por exemplo, e apesar de atualmente estar localizado bem longe da meta da Ronde em Oudennarde, foi no Muur que em 2017 os belgas Quick-Step lançaram o primeiro ataque levando Phillippe Gilbert para a vitória que teve tanto de belo como também de supranatural aproveitando as ondas espirituais do Kappelmuur.
Capela de Oudeberg, lugar de culto para os amantes de ciclismo
 
O Muur é curto, apenas com 1km de extensão e com média de 9,2% A inclinação máxima é de 19%já perto do final.
 
perfil do Kappelmuur
Ganhou notoriedade quando passou a fazer parte dos km finais da Ronde. No Muur fizeram-se ataques lendários. Em 2010 Cancellara descarregou Boonen de tal forma que mais parecia que ia de motorizada :) Ballan em 2007 também aí atacou para a vitória em Meerbeke. O italiano, dias depois de conquistar a Ronde, descreve o Muur da seguinte forma: “ é uma sensação única e um ruido que nunca ouvi nem vou ouvir em mais lado nenhum do mundo”. Também Musseeuw, o leão da Flandres, vencedor da prova por 3 vezes (93,95 e 98) descreveu a subida à capela de Oudeberg. Foi mais ousado nas palavras e meio a brincar disse: “ganhar a Ronde no Muur é como ter um orgasmo em cima da bicicleta” .
Musseeuw, o leão da Flandres ao ataque no Muur
 
O Muur tornou-se então o mais importante e mítico “helligen” da Ronde. Era o local onde se faziam os ataques vitoriosos e também o local onde os fanáticos adeptos flemish pernoitavam para conseguir um local privilegiado. É fácil pesquisar fotos de vários anos e reconhecer as caras dos adeptos. As encostas á volta da capela funcionavam quase como os lugares reservados num estádio de futebol .
A loucura dos fanáticos adeptos flemish


Mas em 2012 o impensável aconteceu. Oudennarde ganhou a corrida para final da Ronde e Meerbeke ficou para trás. Com esta mudança de meta também o tradicional percurso foi alterado. A dupla Kappelmuur – Bosberg foi substituída pela atual Oude kwaremont – Paterberg e muitos fizeram o funeral à Ronde. Era impossível a Ronde, o dia nacional belga , sem a subida ao Muur. Muito se falou na altura e os protestos foram muitos e de diferentes formas. Chegou-se mesmo a fazer o enterro da Ronde! Os adeptos mais fervorosos juraram mesmo que nunca mais viam a corrida. A Ronde estava ferida e para alguns em estado de coma para sempre.


O funeral da Ronde Vlaanderen, 2012
Mas em 2017 o Muur regressou apesar de não ocupar o lugar de destaque de outras edições.
Localizado a cerca de 90km do fim, a subida tornou-se mesmo assim decisiva na edição do ano passado. Coincidências ou não, o que é certo é que com o regresso do Muur as vitórias memoráveis na Ronde voltaram. Gilbert que o diga.
 
Ronde van Vlaanderen 2018

A corrida de domingo traz uma alteração ao percurso que normalmente é apresentado nos últimos anos. A partida é de Antuérpia em vez da cidade de Brugge. Desta vez serão 267km entre Antuérpia e Oudennarde. Os famosos muros/”helligen” estarão lá todos. Além do já falado Muur, que se encontra a 90km da meta, também o mítico Koppenberg , já aqui falado, o Taaienberg, o Kruisberg/Hotond e a dupla Oude Kwaremont / Paterberg ( ultrapassada por duas vezes, a última das quais a cerca de 13km do fim ) farão parte da edição 102ª da Ronde.

A previsão de tempo é de frio e chuva o que irá baralhar ainda mais as contas finais de uma corrida que parece estar demasiado aberta a muitos favoritos o que é bastante prometedor para quem quer um bom espetáculo durante cerca de 6 horas.

Uma equipa irá aparecer bastante forte. Quick Step-Floors que tem dominado a época das clássicas no norte da Europa. Os 4 magníficos da equipa belga : Gilbert , vencedor do ano passado , Trepstra , vencedor da E3 Herelbeke , Lampaert , venceu na Dwars door Vlaanderen e o checo Stybar parecem ser o bloco mais forte na partida em Antuérpia. Gilbert está em boa forma e ganhar duas vezes seguidas a Ronde é coisa que nem nos seus melhores sonhos.
Gilbert 2017: espetáculo
 
Por sua vez, Sagan (Borahansghroe) , vencedor em 2016 traz dois monstros no que diz respeito a trabalho. Daniel Oss  e Marcus Burghardt. Estará o eslovaco em condições de responder de forma positiva aos colegas de equipa? Estará o seu pico de forma guardado para as próximas duas provas: Ronde e Paris-Roubaix ? Este ano e apesar da vitória em Gent-Wevelgen, Sagan parece não estar a correr no seu “estado normal” o que não é necessariamente mau. O tri campeão do mundo poderá estar a preparar um golpe de mestre para os dois próximos domingos.

Depois temos Avermaet ( BMC) que dominou a época de clássicas o ano passado mas ainda não se viu o seu super nível e categoria na presente temporada. O belga já ganhou em Roubaix e como bom flemish que é deverá ter como sonho de criança o triunfo na corrida mais importante: a Ronde. Paranajudar a cumprir o sonho, Avermaet tem em Stefan Kung e de Jurgen Roelandts os seus melhores amigos.

Mas há mais e estaríamos aqui umas boas horas a falar de favoritos. Se Oliver Naesen ( AG2R), Kristoff (UAE), Kwiatkowski ou van Baarle ( Team Sky), Sep Vanmarke ( Team EF) , Benoot (Lotto Soudal), Jasper Styuven ( Trek-Segrafredo) e Wout van Aert ( Verandas-Crelan) , se um deles ganhar não fiquem surpreendidos. São todos favoritos.

Porque não José Gonçalves (Team Katusha). Como disse um dia José Torres: “Deixem-nos sonhar” !

E pronto, no próximo domingo, se forem a uma missa mesmo de verdade rezem muito e façam muitas preces mas não se esqueçam da Ronde. Depois de terminar a missa vão a correr para casa comer o borrego. Mas no máximo pelas 14h00 agarrem numa cerveja e vejam a mais espetacular homilia de ciclismo: RONDE VAN VLAANDEREN .
 
Antuérpia-Oudennarde
 

Startlist: aqui
Percurso: aqui
Transmissão TV : 09h15m Eurosport 1 ( transmissão na integra )
Hastag: #RVV #RVV18 #RVV2018 #ronde #rondevanvlaanderen

 
Boas pedaladas

AT

sábado, 24 de março de 2018

A Gent-Wevelgem e a I Guerra Mundial


Nota Prévia:

 
Uma das principais criticas que têm feito ao Aguadeiro Trepador Blog é que sempre que escreve nas vésperas de uma prova, normalmente fala pouco sobre ela. As críticas são maioritariamente negativas. Algumas, as mais engraçadas, são: “mas isto é uma página de ciclismo?”  ou “Aguadeiro Trepador? Só pelo nome já sabemos que quem escreve nada sabe de ciclismo”!

São nestes momentos que o Aguadeiro Trepador fica feliz com o projeto!

Uma coisa é não concordar com uma opinião e como até já dissemos noutra ocasião isso até é bastante saudável. Mas outra, e essa é mesmo muito pouco inteligente, é não perceber que o objetivo do Aguadeiro Trepador não é passar horas a fio a relatar de forma exaustiva as provas que estão a decorrer ou as que irão para a estrada nos dias seguintes sem dar uma única opinião! Também o fazemos, mas como já devem ter reparado, na maioria das vezes isso passa para segundo plano. Se querem conhecer detalhadamente o percurso, os últimos vencedores, os favoritos …..basta abrir o site da prova em questão ou qualquer um dos 1001 sites de ciclismo que irão encontrar toda essa informação de forma profissional. E por enquanto o Aguadeiro Trepador é amador! Escreverá daquilo que quiser, como quiser e onde quiser!

 
A 80ª Gent-Wevelgem in Flanders Fields

 
Amanhã teremos a 80ª edição da Gent – Wevelgem., A mais importante clássica flandrien disputada até agora. Daqui a uma semana é o dia nacional Belga com a Ronde Van Vlaanderen.

É diferente das outras provas disputadas até então. São 250km, entra em França e tem menos muros típicos da Flandres. O que não significa que seja mais fácil.
A dupla passagem pelo Kemmelberg, principalmente a 2ª passagem que é feita por Ossuary a 34km da meta farão a seleção dos mais fortes. Para quem gosta de números este é o “hellingen “famoso com maior inclinação máxima. São 28,4% !!!!
Kemmelberg
 

 
Mas para quem gosta de história também muito há para falar.
Bataille du Mont Kemmel , 1918
 
Foi zona do Kemmelberg que se realizou uma das mais importantes batalhas durante a 1ª Guerra Mundial. Essa batalha teve a maior participação de sempre de soldados portugueses. Conhecida como a Batalha de la Lys, que se estendeu á região belga da Flandres e ao monte Kemmel. Morreram nesta batalha 1861 portugueses.
Durante a corrida de amanhã e no final do Kemmelberg é possível ver o monumento que assinala a terrível “ Bataille du Mont Kemmel “
 
Gent-Wevelgem , 251km
 

 
All in em 3 homens : Avermaet; Viviani; Demare

 
Ás 13h30m na Eurosport 1
Boas Pedaladas,
AT
 
 

domingo, 18 de março de 2018

Vincenzo Nibali : “Un Uomo solo a Sanremo”

 
“Un Uomo solo a Sanremo”
Foi desta forma que a Gazzetta Sportiva descreveu a brilhante vitória de Vincenzo Nibali no primeiro Monumento da época: a Milano-SanRemo.
Para perceber a analogia presente na manchete do principal jornal desportivo italiano é preciso recuar 69 anos.
Em 1949, Mauro Ferreti, imortalizou Fausto Coppi deixando os italianos a imaginar e a sonhar:
“ un uomo solo é al comando, la sua maglia é bianco-celeste, il suo nome é Fausto Coppi “
O jornalista italiano descrevia desta forma a mais bela vitória do campeão italiano. Coppi pedalava sozinho á 192km e chegou isolado as terríveis rampas de Casse Dessert no Col d Izoard.Coppi parecia um rato na montanha.
A estória pode ser lida aqui.
Ontem foi a vez de Vincenzo Nibali chegar isolado a Via Roma e ganhar a Milano-SanRemo.
Nibali junta ao seu vasto palmarés, onde se inclui Tour de France (2014), Giro Itália ( 2013, 2016), Vuelta a Espanha ( 2010) e Il Lombardia (2015,2017) , a Classicissima “ La Primavera”. O ataque no Poggio de SanRemo , uma descida louca até aos últimos 2km e a persistência até aos últimos metros valeram-lhe uma das melhores , se não mesmo a melhor e mais espetacular, vitória da sua carreira.
Desde 2008, com Cancellara, que uma fuga não tinha êxito na MSR.
Há doze anos que um italiano não ganhava a corrida. O último foi Pozzato em 2006.
26 anos depois um vencedor de uma Grande Volta - GT (Tour ou Giro ou Vuelta) ganha a Classicíssima MSR. Antes de Nibali apenas Sean Kelly (Vuelta) em 1992!
Se reduzirmos os números e se pensarmos em ciclistas que ganharam as três GT e pelo menos dois Monumentos diferentes teremos apenas : Felice Gimondi, Eddy Merckx, Bernault Hinault e agora Vicenzo Nibali. Notável !!!!!
De todas as mensagens de felicitação que Nibali terá recebido , certamente uma ficará para sempre na sua memória! O telefonema de Eddy Merckx : “ Nibali hoje foste grande “

Nibali entrou para a história…e a Gazzetta Sportiva fez uma capa excecional. Tal como a vitória do tubarão de Messina.

Boas Pedaladas
AT

quinta-feira, 15 de março de 2018

Milano-SanRemo " La Classicíssima" : o primeiro Monumento de 2018



MSR 2018: 17/03/2018

 
Os Monumentos do Ciclismo começam com "La Classicíssima " ou “La Primavera” . É amanha. Sábado

 São 291km que ligam Milano a San Remo. Mais ou menos de Lisboa ao Porto. O mais longo dos Monumentos. A prova mais longa do calendário mundial.

Quando recentemente se discutiu se a Strade Bianche já era um dos monumentos do ciclismo ou se um dia iria ser, a nossa resposta foi bastante clara. Concluímos que não! Pelo menos por agora! Está a fazer o seu percurso, mas para ser “Monumento “há um longo caminho a percorrer e muitas estórias para contar. Na Milano-San Remo esse caminho começou em 1907. A Strade Bianche ainda é uma jovem com 12 anos de idade.

 

Milano-San Remo: o  “Monumento”

 A prova foi inicialmente organizada pelo jornal desportivo “Gazeta dello Sport” em 1907 e teve a distância de 288km. Estavam escritos 62 ciclistas, mas na linha de partida em Milano apenas se apresentaram 33. Mais de metade desistiu durante a prova e em San Remo apenas 14 “heróis “ cruzaram a linha de meta.
Lucien " Petit Breton" o 1º vencedor
O francês
Lucien Petit-Breton foi o mais rápido a percorrer a ligação. Nesta altura fazer 288km significavam muitas horas em cima das bicicletas e Lucien “Petit-Breton” levou 11h04m. Uma média de 26km/h. Uma grande performance para a altura. Atrás do francês chegou o seu compatriota Gustave Garrigou e em terceiro o italiano Giovanni Gerbi, o famoso “Diabo Vermelho” que já falamos aqui.

Nesta época provas com distâncias elevadas não tinham apenas a vertente de competição desportiva. Eram também provas de superação da resistência humana e nalgumas vezes de sobrevivência.

Além da elevada distância as estradas eram péssimas e muitas vezes as condições meteorológicas eram dantescas. Numa das primeiras edições os ciclistas tiveram mesmo de “furar” pela neve para continuar na direção de San Remo. Aconteceu em 1910.

A edição de 1910 foi particularmente difícil. Começou pelas 6 da manhã e logo nos primeiros km os ciclistas encontraram uma tempestade de neve. Ao chegar ao Passo de Turchino , subida que se mantem e que fará parte do percurso da edição de 2018, muitos ciclistas não aguentaram e voltaram para trás. Outros pediram refúgio nas casas que encontraram e depois de aquecerem o corpo recusaram-se a continuar em prova e foram diretos para casa. Depois do Passo de Turchino apenas 30 ciclistas continuaram em prova.
MSR 1910: furar a neve
Um deles foi Eugène Christophe que viria a ser o primeiro em San Remo. A meio da prova Christophe foi obrigado a vestir umas calças para se proteger do frio. Ao passar por Savona , o francês assumiu a liderança mas por pouco tempo. As suas calças entalaram-se na corrente da bicicleta e Christophe viu-se obrigado a pedir ajuda numa pequena localidade. Enquanto lhe cortavam as calças, libertando a bicicleta, o ciclista aproveitou para se alimentar abastecendo-se convenientemente para o resto da prova. Apesar do tempo perdido Christophe ganhou um novo folego e conseguiu alcançar a frente da corrida. Sem as calças e bem alimentado passou direto para a liderança e chegou a San Remo com mais de 1 hora de vantagem para o segundo classificado. A epopeia de Eugene Christophe durou 12h24m.
Eugene Christophe vencedor em 1910
A mais lenta das edições da Milano – San Remo. No final o francês foi hospitalizado por queimaduras nas mãos e cara. Esteve mais de um mês no hospital de San Remo e só voltou a competir passados 2 anos.
 
Mais recentemente a neve também fez a sua aparição durante a prova. Foi em 2013. Os ciclistas não se refugiaram nas casas por onde passavam, mas sim nos autocarros e carros das suas equipas. Mas tal como em 2010 muitos já não regressaram á competição.

 

Nos anos seguintes a prova foi ganha pelos grandes nomes da altura: Alfredo Binda, Constante Girardengo ou Henry Pellissier.

 


Também a Milano San-Remo foi palco de batalha da maior e mais bonita rivalidade do ciclismo: Gino Bartali vs Fausto Coppi. A luta entre os dois não se fez apenas no Izoard nos Alpes( ver aqui), ou no Tourmalet ( Pirenéus ) ou noutra qualquer grande subida do Tour de France ou do Giro de Itália. Para a história ficam também as edições da década de 40 onde os dois italianos disputavam a “Classicíssima “como se fosse a última corrida da vida. Num ano era Bartali que fugiu logo no Passo de Turchino conquistando a corrida com uma longa escapada de centenas de quilómetros. No ano seguinte era a vez de Coppi pedalar com elegância e distanciar-se de Bartali acabando em San Remo com muitos minutos de vantagem. Na edição de 1946 a vantagem de Coppi era tão grande que o “Campionissimo” parou para tomar café seguindo mesmo assim destacado na frente. Entre 1940 e 1950 a corrida foi disputada nove vezes (paragem de dois anos devido à Segunda Guerra Mundial). Dessas nove edições Bartali e Coppi venceram seis.
 
Fausto Coppi vence isolada em 1946
 

 
O palmarés da Milano-Sanremo é vasto e rico em nomes importantes: Eddy Merckx é o seu recordista. O Belga ganhou 7 vezes. Tambem Rik van Looy e Roger de Vlaeminck venceram a prova italiana para completar o penta dos “Monumentos “. Franscesco Moser e Laurent Fignon também tem o nomes inscritos na placa do primeiro lugar, assim como Laurent Jalabert, Erik Zabel, Cancelllara, Cavendish ….
A prova do ano passado foi ganha pelo polaco Michał Kwiatkowski num sprint muito comentado e discutido com o francês Alaphillipe e o campeão do mundo Peter Sagan. Kwiatkowski e Sagan são uns dos principais favoritos a ganhar a edição 2018 da “Classicíssima”

 
Milan-San Remo 2018

 
A edição de 2018 não deve fugir muito ao filme dos últimos anos. O percurso é o mesmo e as dificuldades também.
 
MSR 2018
 
Provavelmente teremos a fuga do dia a ganhar tempo até aos três Capos. Quando passarem o Capo Mele, Capo Cerve e o Capo Berta o pelotão acelera e entra compacto na Cipressa. Aí o posicionamento é fundamental pois a corrida começa a desenrolar-se a uma velocidade bastante elevada. Uma boa entrada no Poggio di Sanremo é sinonimo de sair dele numa posição bastante razoável e em condições de discutir a corrida na Via Roma. O Poggio di Sanremo com os seus 3,7km com média de 3,7% e max 8% fará a seleção dos candidatos uma vez que os restantes 5km serão em descida até entrarem no km final.
 
Poggio di Sanremo, lugar decisivo nas ultimas edições da MSR
 
Em 2017 foi na parte final do Poggio di Sanremo que Sagan atacou levando na roda Alaphillipe e Kwiatkowski que acabou por ser o vencedor ganhando o seu primeiro monumento. Muito se falou deste final e parece que as coisas ainda não estão resolvidas. Sagan disse recentemente: “que não ficaria feliz se ganhar a Milan-San Remo da forma como Kwiat a ganhou em 2017”. O polaco percebeu a “boca “e prontamente respondeu: “às vezes não vence o mais forte, vence o mais inteligente”. Quem terá razão? Para a história da prova ficará a vitória de Kwiatkowski sobre o campeão do mundo, quando este era claramente favorito. Mas também ficará na memória o ataque do eslovaco no Poggio destruindo um pelotão muito numeroso.

Será que este “drama “se repete no próximo sábado?
 
MSR 2017: um sprint para a história
 
Além de Sagan e Kwiat outros nomes que aparecem como potenciais favoritos são: Phillippe Gilbert que aposta tudo este ano em ganhar em San Remo e em Roubaix. Gilbert partilha a liderança da equipa belga com Alaphillipe. Os dois terão uma equipa a trabalhar ao seu dispor, depois da ausência de Fernando Gaviria. A terceira opção da Quick Step-Floors será Elia Viviani, mas para isso terá de sair no grupo da frente depois do Poggio di Sanremo.

Também Arnaud Demare está aparentemente em boa forma para discutir os metros finais da “La Primavera”. Sabe o que é ganhar, fê-lo em 2016 e pode repetir em 2018.

Sonny Cobrelli, Avermaet e Matteo Trentin deverão também estar entre os homens da frente.

 Não é de descartar Vincenzo Nibali, o tubarão normalmente faz o seu ataque nesta prova. De longe como é habitual no italiano. Se resultar Nibali é homem para passar Cipressa e Poggio na frente e ganhar na via Roma. As últimas edições da prova não ajudam nesta teoria, há muitas edições que uma fuga não tem sucesso na Milan-SanRemo.

 A participação portuguesa está a cargo de José Goncalves da Team Katusha.
 
O Mar da Liguria e os seus famosos " Capos" presença constante na MSR
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Startlist: aqui

Percurso: aqui

Transmissão TV: Eurosport 2 pelas 13h30m

Hastag: #MSR #MSR18 #MSR2018
 
Boas pedaladas

AT